Futebol arte versus futebol negócio
Em 1982, quando o
Brasil foi eliminado na Copa do Mundo de futebol pela Itália, eu tinha dez anos
de idade. Chorei copiosamente. O Brasil tinha um time de excelentes jogadores e
vários craques, do número um ao número onze (e nesta época a escalação inicial
ia mesmo do número um ao onze).
Até aquela Copa do
Mundo, quando já éramos tricampeões mundiais, jogávamos um futebol-arte em
essência e os atletas sentiam muito orgulho de vestirem a camisa da seleção
brasileira. Eram estrelas do esporte, mas não se comportavam como tais. Dedicavam-se
em campo, pela seleção brasileira, até mais do que se dedicavam em seus clubes.
Nas edições
seguintes da Copa do Mundo, a cada eliminação do Brasil eu chorei menos, intercalando
o choro – já reduzido - nas edições de 1994 e 2002, quando o Brasil foi tetra e
pentacampeão do mundo, respectivamente.
Depois de 2002, definitivamente
deixei de chorar a cada vez que o Brasil foi eliminado precocemente em uma Copa
do Mundo de futebol, por várias razões.
Nesta edição da
Copa do Mundo de 2026, confesso que nada senti, exceto uma leve tristeza em decorrência
do amor ao Brasil, diante da eliminação do nosso selecionado pela nem tão
expressiva seleção da Noruega, um país mais conhecido pela tradição dos Vinkings
do que mesmo pelo futebol.
Sim, eu torci pelo
Brasil. Sou brasileiro e não sou falso patriota. No entanto, não me iludo mais com
a forma como é tratado o nosso maior esporte pela Confederação Brasileira de
Futebol – CBF, entidade que, assim como a sua superior Federação Internacional
de Futebol Associação – FIFA, transformou o esporte mais popular do mundo unicamente
em um meio de arrecadação de receitas e manutenção de umas poucas castas no
poder.
Ninguém em sã
consciência acreditaria que o Brasil tivesse a capacidade de chegar muito longe
nessa Copa do Mundo. A CBF passou o ciclo de preparação pré-Copa envolvida em
brigas internas pelo poder, com alternância turbulenta de comando na
instituição e litígios levados até a esfera judicial.
Em meio a essa bagunça
institucional, a seleção brasileira teve quatro técnicos diferentes de 2022 até
2026. Nenhum treinador, porém, teve autonomia técnica de, juntamente, com a sua
comissão, levar ao time, unicamente, os jogadores que realmente estivessem no melhor
momento técnico e físico, aqueles que de fato estivessem a merecer a vaga no
selecionado mais vitorioso do mundo.
Diante da
estagnação de ideias dos treinadores brasileiros, a CBF, em uma jogada
midiática gigantesca, trouxe para assumir o comando técnico da nossa seleção o
italiano Carlo Ancelotti, um treinador multi campeão pelos muitos clubes de
futebol por ele dirigidos, na Europa.
Em razão do peso
do nome trazido para o cargo de técnico da seleção brasileira, imaginava-se que
Ancelotti teria autonomia para escolher quem quisesse, de acordo com os
critérios de merecimento de cada um. Ledo engano. Ancelotti, que recebe
mensalmente milhões de reais da CBF, curvou-se a esta e foi obrigado e levar
para a Copa do Mundo o jogador Neymar Júnior, ainda em recuperação de lesão
grave, totalmente fora de forma e que não vinha sendo chamado por ele para
jogos de preparação.
Boa parte da mídia,
em especial o Grupo Globo, passou os últimos meses anteriores à última
convocação para a Copa do Mundo instigando, sugerindo e praticamente exigindo
que se levasse Neymar Júnior para o campeonato mundial de seleções.
Além disso,
patrocinadores e as plataformas eletrônicas de apostas (“bets”) parecem querer
que alguém com esse nome esteja numa Copa do Mundo, pois, sendo assim, todos ganham
bastante, menos o futebol.
De fato, na prática,
Neymar em nada contribuiu para a melhora de jogo do Brasil nas duas ocasiões em
que entrou, no segundo tempo de cada partida. Do contrário, no jogo da eliminação,
diante da Noruega, o Brasil somente tomou dois gols após a entrada de Neymar,
que ainda se envolveu em confusão, tomou um cartão amarelo e converteu um penâlti
no final do jogo para diminuir a vergonha.
Ancelotti também
errou por se apegar demais a alguns nomes que, no passado, renderam um bom futebol
em vários clubes, inclusive em clube onde ele foi treinador, mas que há muito
tempo não têm mais o mesmo vigor físico necessário para se jogar uma Copa do
Mundo, um torneio curto, que exige de todos um rendimento elevado, de muita
intensidade. Foi o caso de Casemiro, meio-campista de idade avançada que, assim
como outros “velhinhos” escolhidos por Ancelotti, já não consegue acompanhar o
ritmo de adversários jovens e habilidosos.
Aliás, o time do
Brasil estava repleto de jogadores de idade avançada para um futebol de alto
rendimento, convocados justamente porque não se fez uma necessária renovação, e
também muito em função do grande desalinho que marcou todo o ciclo de preparação
para a Copa.
Se a CBF e a
comissão técnica do Brasil têm a maior parcela de culpa nesse fim melancólico
que, mais uma vez, teve o selecionado nacional em mais uma Copa do Mundo, os atletas
convocados também não exerceram, em sua maioria – há exceções – o futebol que
costumeiramente desenvolvem nos clubes nos quais jogam o ano inteiro.
Nos clubes, onde
têm contratos milionários, alguns jogadores atuam em outro nível, que não
repetem quando estão à disposição da seleção. Parecem temer contusões que lhes
tirem o prestígio nos clubes.
Outrossim, é triste
constatar, mas a verdade é que atualmente existem menos jogadores de futebol em
essência, pois muitos preferem se comportar como estrelas midiáticas, personagens
cheios de estilos, astros da internet que dão a vida nos seus clubes mas acham
que fazem favor quando vestem a camisa da seleção brasileira. Outro dia, em entrevista,
um deles falou que tinha saído de férias no clube e logo tinha sido convocado
para jogar pela seleção, dizendo isto de forma a se entender que ele estava a fazer
um grande favor para o time Brasil.
A própria Copa do
Mundo, realizada neste ano em três países, faz-nos ver que a FIFA pouco se
importa com o futebol. Se a Rússia foi banida de esportes olímpicos por invadir
a Ucrânia, os Estados Unidos da América não poderiam ser presentados como sede
de uma Copa após provocarem gratuitamente invasões e guerras pelo mundo.
Se o esporte deve servir
para gerar inclusão, o que se viu na Copa do Mundo 2026 foi o contrário:
torcedores de várias partes do globo foram impedidos de entrar no território
dos Estados Unidos e o melhor árbitro de futebol do continente africano não
teve autorização para trabalhar nos Estados Unidos durante a Copa.
Essa discriminação
foi ainda mais marcante com a seleção iraniana, que, mesmo tendo seus jogos
realizados na terra dos ianques, foi obrigada a se hospedar no México e tinha
que retornar imediatamente para a terra da tequila ao final de cada
jogo, o que prejudicou profundamente o rendimento esportivo do Irã, que recebeu
tratamento desigual ao que foi dado aos seus oponentes. Aliás, diversos membros
da delegação iraniana de futebol foram impedidos de viajar para a Copa do
Mundo.
Infelizmente,
quando o futebol vira unicamente um lucrativo negócio no mundo, esta realidade
é ainda mais dura no Brasil, cuja entidade máxima deste esporte, A CBF, é um
grande e fechado clube arrecadador, gerido por poucos, pessoas dotadas de
interesses que passam longe do interior maior que seria o de preparar a seleção
para conquistar novamente uma Copa do Mundo.
Sentada sob uma
montanha de dinheiro, a diretoria da CBF segue tranquila. Quando houver eleição
para renovação dos mandatos, estará tudo sob controle. As Federações de futebol
dos Estados e do Distrito Federal, que recebem gordas quantias da CBF para
promoverem campeonatos estaduais cada vez menores e mais fracos, e os dirigentes
de clubes das séries A e B do campeonato brasileiro, também despreocupados com
o futebol nacional, provavelmente conduzirão a um novo mandato os mesmos de
sempre, ou aqueles que eles indicarem.
Enquanto isso, nós
torcedores amargaremos o sabor dos insucessos da nossa seleção, que não tem
mais o respeito de outrora nem mesmo na América do Sul, pois, de uns anos para
cá, o Brasil mostra enorme dificuldade para superar outras seleções que antes temiam
severamente quando enfrentavam o escrete canarinho. Hoje em dia, sofremos
quando jogamos com Venezuela e Bolívia, por exemplo, quando há décadas atrás
tínhamos a certeza de que, diante de adversários como estes, faríamos um treino
luxuoso, com direito e goleadas.
Mas nem tudo está
perdido, ao menos para a CBF. Mesmo com a eliminação vergonhosa nesta Copa nas
oitavas de final, a entidade máxima do futebol brasileiro receberá da FIFA uma
premiação de 15 milhões de dólares, o equivalente a 77,5 milhões de reais.
Alcimar Antônio de
Souza
Advogado e membro
da APAJ – Associação dos Poetas e Artistas do Junco
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