sábado, 31 de janeiro de 2026

Despedida

O ADEUS AO AMIGO SÁVIO MARCELLUS

O dia amanheceu triste, com notícia péssima, dessas que a gente nunca gostaria de receber, mesmo sabendo que em uma ou outra hora elas chegarão, por serem inevitáveis. Pela velocidade da internet ficamos sabendo que perdemos o amigo Sávio Marcellus Andrade Alves, filho de Nizinha Andrade e Arlindo Alves, de origens no Sítio Jatobá, em Patu, radicado em Mossoró há décadas.

Marcelo, ou Savinho, como nos acostumamos a chamá-lo carinhosamente, foi professor de História de muito destaque em Mossoró e em outras cidades do Rio Grande do Norte, do Ceará e da Paraíba. Para quem não era seu parente próximo ou amigo íntimo, ele se tornou conhecido por sua competência e pela enorme contribuição que deu à educação.

Nosso professor Sávio também teve destacada atuação no Jornal de Fato, de Mossoró, para quem trabalhou na produção de conteúdos educacionais, contribuindo decisivamente para o sucesso de alunos que desejavam a aprovação na Universidade pública, mas que não poderiam custear os cursinhos preparatórios, de mensalidades sempre distantes de uma camada social mais numerosa. No diário mossoroense, editava um caderno voltado a este segmento estudantil.

Como a maioria do povo brasileiro, Sávio era apaixonado por futebol. O Botafogo do Rio de Janeiro e o Baraúnas de Mossoró eram seus times de coração. Do Baraúnas, Marcelo foi mais que um simples torcedor: foi seu dirigente, atuando inclusive como vice-presidente e depois como presidente interino do Leão da Doze.

A sua maior paixão, porém, era a sua família, da qual Sávio Marcellus falava sempre com sorriso no rosto, com o brilho de quem amava ter uma família numerosa e amava sentir-se amado por ela. Sua mãe, Nizinha, seu pai Arlindo (de saudosa memória), seus irmãos Sônia e Luiz André, seus muitos primos que viraram irmãos, sua esposa Renata, seus filhos Júlia e Sávio Júnior e, mais recentemente, um neto, todos recebiam de Sávio um carinho enorme, um amor verdadeiro, um jeito suave e ao mesmo tempo alegre de serem lembrados, falados, festejados.

Outra paixão de Marcelo era a terra de origem de sua mãe Nizinha, o Sítio Jatobá, na zona rural de Patu. Ele visivelmente se alegrava ao estar no chão em que pisou frequentemente quando criança e por toda a adolescência. A casa grande onde Cirino Andrade Nunes e Ana Maria Felipe de Andrade, seus avós maternos, criaram os muitos filhos, era sempre motivo de muita alegria para Marcelo, um verdadeiro elixir para a sua alma, um motivo de festa para ele. Com uma verdade que vem do coração, ele dizia que o Jatobá era o melhor lugar do mundo.

E nesse contexto entramos nós, seus amigos. Ah, os amigos de Marcelo eram muitos, tanto em Mossoró como em Patu e em outras bandas. Fazer amizades e saber conservá-las eram marcas incontestáveis de Sávio Marcellus, um profícuo cavalheiro no trato com as pessoas. Por sinal, as pessoas, e não os valores, eram o que realmente interessava a Marcelo.

Embora alguns de nós já conhecêssemos Marcelo de outros lugares, foi nas suas idas ao Sítio Jatobá, em Patu, que a nossa amizade se tornou mais estreita, mais forte. Seus primos, parentes de sua mãe Nizinha, naturalmente já tinham um laço afetivo construído com Sávio. Outros, como nós, apertamos o nó desse laço em vários encontros, muitos deles debaixo do alpendre da casa de seu tio Cícero Romão de Andrade, o popular Ciço Arroz, também de saudosa memória.

Depois que se aposentou, Marcelo passou a frequentar mais vezes o Sítio Jatobá. Sem poder mais dispor da casa de seus avós, ele passou a ficar na casa onde um dia morou seu tio Ciço Arroz, vizinha à casa de Cirino. Mas isso já lhe bastava para trazer a alegria de quem amava estar naquele chão. E de lá ele percorria as estradas e veredas do Jatobá e arredores, visitando velhos amigos, que também iam com frequência ao seu encontro ao saberem que o filho de Nizinha estava no Jatobá.

A sua permanência prazerosa no Sítio Jatobá somente era quebrada quando ele visitava outros parentes e muitos amigos na cidade de Patu. Não raro, havia sempre um convite de alguém para um almoço, um jantar, uma confraria em família. E isso lhe fazia muito bem.

Mas a sua presença também nos fazia muito bem. Era verdadeira, alegre, festiva. Fosse na Biologia, poderíamos dizer que Marcelo e seus amigos tinham uma relação de simbiose da espécie mutualismo, pois era uma relação benéfica aos dois lados, eis que não havia, quem fosse seu amigo, que não gostasse daquela conversa franca e inteligente, daquele jeito sincero, daquele sorriso largo e daquela educação fina de sempre agradecer por qualquer coisa ou qualquer gesto, por mais simples que fosse.

Dos meus filhos, duas meninas são primas de Sávio, porque a minha esposa é prima dele, sobrinha de “tia Nizinha”, como assim lhe chamam carinhosamente todas os sobrinhos e sobrinhas, inclusive sobrinhos-netos e sobrinhas-netas. Esse fato também contribuiu para que nos tornássemos ainda mais próximos.

Amigo professor, sentiremos a sua ausência eternamente, principalmente quando estivermos próximos à velha churrasqueira da casa de seu tio Ciço Arroz, onde nos reuníamos ao redor daquela surrada mesa para uns goles e muitas risadas. A bebida era apenas um pretexto, pois a verdadeira alegria vinha de você e da nossa sincera relação de amizade.

De modo particular, eu, Júlio, Detulho, Anchieta, Toinho do Leite, Neto e Rodrigo, que mais ficávamos noite adentro nessas confrarias ou nos muitos domingos de muita prosa, haveremos de lembrar de você a cada vez que voltarmos ao ponto desses encontros casuais que a vida nos proporcionou.

Os seus primos e primas, filhos e filhas e netos de seu tio Ciço Arroz, também já sentem a sua falta. Assim como nós, acostumaram-se a recebê-lo de tempos em tempos, para reencontros simples porém grandiosos nas terras onde você e eles foram criados.

Rogamos a Deus que, de acordo com a justiça divina, em que também se faz presente a misericórdia, o Reino do Céu, no qual nós acreditamos por nossas crenças, seja o lugar reservado a você, pessoa que passou a vida cuidando de fazer o bem, cultivar as amizades e de forma constante amar a família.

Descanse em paz, professor! Continue a brilhar como luz no plano celestial, com a mesma intensidade de luz que fostes aqui na terra! Que no Céu também se escute o bordão “Não tenho passado, tenho História”, que tantas vezes ouvimos de você!

Alcimar Antônio de Souza