O ADEUS AO AMIGO
SÁVIO MARCELLUS
O dia amanheceu
triste, com notícia péssima, dessas que a gente nunca gostaria de receber,
mesmo sabendo que em uma ou outra hora elas chegarão, por serem inevitáveis.
Pela velocidade da internet ficamos sabendo que perdemos o amigo Sávio
Marcellus Andrade Alves, filho de Nizinha Andrade e Arlindo Alves, de origens
no Sítio Jatobá, em Patu, radicado em Mossoró há décadas.
Marcelo, ou
Savinho, como nos acostumamos a chamá-lo carinhosamente, foi professor de
História de muito destaque em Mossoró e em outras cidades do Rio Grande do
Norte, do Ceará e da Paraíba. Para quem não era seu parente próximo ou amigo
íntimo, ele se tornou conhecido por sua competência e pela enorme contribuição
que deu à educação.
Nosso professor Sávio
também teve destacada atuação no Jornal de Fato, de Mossoró, para quem
trabalhou na produção de conteúdos educacionais, contribuindo decisivamente
para o sucesso de alunos que desejavam a aprovação na Universidade pública, mas
que não poderiam custear os cursinhos preparatórios, de mensalidades sempre
distantes de uma camada social mais numerosa. No diário mossoroense, editava um
caderno voltado a este segmento estudantil.
Como a maioria do
povo brasileiro, Sávio era apaixonado por futebol. O Botafogo do Rio de Janeiro
e o Baraúnas de Mossoró eram seus times de coração. Do Baraúnas, Marcelo foi
mais que um simples torcedor: foi seu dirigente, atuando inclusive como
vice-presidente e depois como presidente interino do Leão da Doze.
A sua maior
paixão, porém, era a sua família, da qual Sávio Marcellus falava sempre com
sorriso no rosto, com o brilho de quem amava ter uma família numerosa e amava sentir-se
amado por ela. Sua mãe, Nizinha, seu pai Arlindo (de saudosa memória), seus
irmãos Sônia e Luiz André, seus muitos primos que viraram irmãos, sua esposa
Renata, seus filhos Júlia e Sávio Júnior e, mais recentemente, um neto, todos
recebiam de Sávio um carinho enorme, um amor verdadeiro, um jeito suave e ao
mesmo tempo alegre de serem lembrados, falados, festejados.
Outra paixão de
Marcelo era a terra de origem de sua mãe Nizinha, o Sítio Jatobá, na zona rural
de Patu. Ele visivelmente se alegrava ao estar no chão em que pisou
frequentemente quando criança e por toda a adolescência. A casa grande onde
Cirino Andrade Nunes e Ana Maria Felipe de Andrade, seus avós maternos, criaram
os muitos filhos, era sempre motivo de muita alegria para Marcelo, um
verdadeiro elixir para a sua alma, um motivo de festa para ele. Com uma verdade
que vem do coração, ele dizia que o Jatobá era o melhor lugar do mundo.
E nesse contexto
entramos nós, seus amigos. Ah, os amigos de Marcelo eram muitos, tanto em
Mossoró como em Patu e em outras bandas. Fazer amizades e saber conservá-las
eram marcas incontestáveis de Sávio Marcellus, um profícuo cavalheiro no trato
com as pessoas. Por sinal, as pessoas, e não os valores, eram o que realmente
interessava a Marcelo.
Embora alguns de
nós já conhecêssemos Marcelo de outros lugares, foi nas suas idas ao Sítio
Jatobá, em Patu, que a nossa amizade se tornou mais estreita, mais forte. Seus
primos, parentes de sua mãe Nizinha, naturalmente já tinham um laço afetivo
construído com Sávio. Outros, como nós, apertamos o nó desse laço em vários
encontros, muitos deles debaixo do alpendre da casa de seu tio Cícero Romão de
Andrade, o popular Ciço Arroz, também de saudosa memória.
Depois que se
aposentou, Marcelo passou a frequentar mais vezes o Sítio Jatobá. Sem poder
mais dispor da casa de seus avós, ele passou a ficar na casa onde um dia morou
seu tio Ciço Arroz, vizinha à casa de Cirino. Mas isso já lhe bastava para
trazer a alegria de quem amava estar naquele chão. E de lá ele percorria as
estradas e veredas do Jatobá e arredores, visitando velhos amigos, que também
iam com frequência ao seu encontro ao saberem que o filho de Nizinha estava no Jatobá.
A sua permanência
prazerosa no Sítio Jatobá somente era quebrada quando ele visitava outros
parentes e muitos amigos na cidade de Patu. Não raro, havia sempre um convite
de alguém para um almoço, um jantar, uma confraria em família. E isso lhe fazia
muito bem.
Mas a sua presença
também nos fazia muito bem. Era verdadeira, alegre, festiva. Fosse na Biologia,
poderíamos dizer que Marcelo e seus amigos tinham uma relação de simbiose da
espécie mutualismo, pois era uma relação benéfica aos dois lados, eis que não
havia, quem fosse seu amigo, que não gostasse daquela conversa franca e
inteligente, daquele jeito sincero, daquele sorriso largo e daquela educação
fina de sempre agradecer por qualquer coisa ou qualquer gesto, por mais simples
que fosse.
Dos meus filhos,
duas meninas são primas de Sávio, porque a minha esposa é prima dele, sobrinha
de “tia Nizinha”, como assim lhe chamam carinhosamente todas os sobrinhos e
sobrinhas, inclusive sobrinhos-netos e sobrinhas-netas. Esse fato também
contribuiu para que nos tornássemos ainda mais próximos.
Amigo professor, sentiremos
a sua ausência eternamente, principalmente quando estivermos próximos à velha
churrasqueira da casa de seu tio Ciço Arroz, onde nos reuníamos ao redor
daquela surrada mesa para uns goles e muitas risadas. A bebida era apenas um
pretexto, pois a verdadeira alegria vinha de você e da nossa sincera relação de
amizade.
De modo
particular, eu, Júlio, Detulho, Anchieta, Toinho do Leite, Neto e Rodrigo, que
mais ficávamos noite adentro nessas confrarias ou nos muitos domingos de muita
prosa, haveremos de lembrar de você a cada vez que voltarmos ao ponto desses
encontros casuais que a vida nos proporcionou.
Os seus primos e
primas, filhos e filhas e netos de seu tio Ciço Arroz, também já sentem a sua
falta. Assim como nós, acostumaram-se a recebê-lo de tempos em tempos, para
reencontros simples porém grandiosos nas terras onde você e eles foram criados.
Rogamos a Deus
que, de acordo com a justiça divina, em que também se faz presente a
misericórdia, o Reino do Céu, no qual nós acreditamos por nossas crenças, seja
o lugar reservado a você, pessoa que passou a vida cuidando de fazer o bem,
cultivar as amizades e de forma constante amar a família.
Descanse em paz,
professor! Continue a brilhar como luz no plano celestial, com a mesma
intensidade de luz que fostes aqui na terra! Que no Céu também se escute o
bordão “Não tenho passado, tenho História”, que tantas vezes ouvimos de você!
Alcimar Antônio de Souza