sábado, 3 de janeiro de 2026

Celebração da vida

Maria Rita: quinze anos

No dia 25 de dezembro de 2010, na cidade de Catolé do Rocha, no vizinho Estado da Paraíba, nasceu MARIA RITA ANDRADE DE SOUZA, filha de ALCIMAR ANTÔNIO DE SOUZA e ELIZÂNGELA FERREIRA DE ANDRADE.

Se MARIA RITA sempre foi muito tranquila e serena, os momentos que antecederam ao seu nascimento e os momentos imediatamente posteriores a ele não foram tão tranquilos.

O nascimento se deu após muitas idas a Municípios diversos durante o último mês de gravidez de ELIZÂNGELA. A cada sinal de um parto iminente, ALCIMAR, ELIZÂNGELA e mais outra pessoa que estivesse por perto (DETULHO era o mais frequente nessa missão) corriam para algum Hospital da região, pois a sala de partos do Hospital Municipal de Patu estava sendo reestruturada. Almino Afonso e Mossoró foram alguns dos destinos buscados na hora do aperreio. Mas o parto não acontecia. Os sinais eram falsos, e a mãe da criança voltava chateada com o tempo gasto na estrada.

Na noite anterior ao dia do parto, ELIZÂNGELA novamente sentiu as contrações. Sem alarde e sozinha foi ao HOSPITAL MUNICIPAL DE PATU, e, acompanhada da saudosa parteira MARIA DIAS, foi levada a Catolé do Rocha, onde MARIA RITA nasceu no dia seguinte. Na caravana das viagens pré-parto, desta vez estavam seu pai, seu tio afetivo DETULHO e sua tia VERA ANDRADE. Apenas os acompanhantes de ELIZÂNGELA já fizeram volume no Hospital de Catolé do Rocha.

Sem chorar no nascimento, MARIA RITA foi conduzida a uma sala especial do HOSPITAL DE CATOLÉ DO ROCHA, pois havia ingerido substância líquida no nascimento, e teve que receber cuidados especiais. O pai, temente a Deus como sempre, aproveitou a existência de uma Capelinha que existia em um dos corredores do Hospital, e pôs-se em oração. E desse encontro com Deus, na presença de Maria, mãe de Jesus, saíram quatro promessas em prol da saúde de MARIA RITA, todas já cumpridas.

E assim MARIA RITA foi crescendo, rodeada de muito carinho de seus pais, de suas famílias e das muitas amizades que foi construindo desde cedo.

Ela teve por avós paternos MARIA JOSÉ DE SOUZA (MARIA DO JUNCO) e JOSÉ ANTÔNIO FILHO. Seus avós maternos são NÉLBIA MARIA DE ANDRADE e ANTÔNIO ETELVINO DE OLIVEIRA NETO (ANTONIO DE GROSSO).

Seus bisavós paternos foram NOÊMIA MARIA DE ALMEIDA e JOSÉ SEVERINO DE SOUZA, e ANTONIA SEBASTIANA DE JESUS e JOSÉ ANTONIO DE OLIVEIRA.

Seus bisavós maternos são MARIVI FERREIRA e FRANCISCO ETELVINO DE OLIVEIRA (SEU GROSSO) e RITA ROCHA DE ANDRADE e CÍCERO ROMÃO DE ANDRADE (CIÇO ARROZ), que em verdade são os pais de criação de sua mãe ELIZÂNGELA.

MARIA RITA conheceu vários desses seus ascendentes, mas infelizmente muitos deles foram habitar no plano de Deus antes mesmo de ela nascer.

Seus irmãos são JOÃO VÍTOR GUILHERME DE SOUZA, CLARA BEATRIZ PEREIRA DE ANDRADE e ISAC PABLO RAMOS OLIVEIRA DE SOUZA. Dos quatro, ela é única ainda menor de idade. Seu primo DAVI GÁLBER ALVES FERREIRA é quase um irmão, pois os dois tem uma convivência desde quando eram bem pequenos, quando inclusive costumavam arengar por tudo. Hoje em dia não brigam mais.

Seus padrinhos de batismo são PAULO HENRIQUE FERREIRA TARGINO e KELLY MEDEIROS, sendo o primeiro primo de ELIZÂNGELA.

MARIA RITA sempre teve uma proximidade muito grande com algumas primas, destacando-se, em maior ou menor proporção, LETÍCIA, PRISCILA JULIANA e ISABELA.

Amigas próximas são muitas, e seria injusto mencionar algumas e esquecer-se de outras.

Em razão de fatos diversos, duas das suas tias são mais presentes na vida de MARIA RITA, e até são responsáveis por fazer todos os gostos dela desde pequena: GLÓRIA (tia de sangue) e JANE REIS, tia afetiva, pessoa que a vida trouxe para perto de MARIA RITA. São duas protetoras permanentes de MARIA RITA, e lhe fazem muito bem no dia a dia.

Além da educação que lhe é peculiar, MARIA RITA carrega consigo a marca do respeito. Aos tios e tias, inclusive tios-avós e tias-avós, costuma pedir a bênção sempre que os encontra. E respeita a todos, como se espera de qualquer criança ou adolescente.

MARIA RITA sempre foi de muita responsabilidade nos estudos. Por onde passou (GINÁSIO COMERCIAL DE PATU e ESCOLA MUNICIPAL RAIMUNDO ROCHA), sempre teve notória aplicação, com resultados extraordinários. Não à toa ela era uma das alunas preferidas da professora CONCEIÇÃO, do GINÁSIO COMERCIAL, que vez por outra a usava como exemplo para algum estudante menos comprometido com o aprendizado.

Fruto da sua aplicação nos estudos, em 2025 MARIA RITA foi aprovada para o curso de Técnico em Edificações do INSTITUTO FEDERAL DA PARAÍBA – IFPB, Campus de Catolé do Rocha, onde passará a estudar a partir de 2026.

Na verdade, a vontade de seu pai, filho de catequista, era que MARIA RITA buscasse o caminho do Convento, para ser freira, o que ela recusou desde cedo. Ainda pequenina, mas já com alguma compreensão da vida, seu pai lhe perguntou por que ela não seria freira, e ela respondeu, na ingenuidade de uma criança: “Porque freira não pode se casar!”

Isto, porém, não significou o afastamento de MARIA RITA dos caminhos de Deus. MARIA RITA sempre frequentou a Igreja Católica, de quem recebeu os sacramentos do Batismo e da Primeira Eucaristia; é aluna da catequese da Crisma, e já tem apalavrada como madrinha uma amiga de infância, JENNIFFER; e participa ativamente de grupos de orações. A sua presença na Santa Missa aos domingos é uma constante, porque assim lhe é ensinado, e porque esta é sua vontade.

O seu respeito a Deus se manifesta no dia a dia: no respeito à família e aos amigos, na vontade de sempre fazer o bem e no tratamento sempre humanizado que dispensa a qualquer pessoa.

Na chegada dos seus quinze anos de vida, MARIA RITA pediu apenas para celebrar com seus amigos, amigas e familiares. O momento é de celebração, mas também de agradecimento a Deus: pela vida, pela família, pelos amigos e por todas as conquistas até aqui alcançadas.

O desejo de sua família e das pessoas que a amam é que MARIA RITA alcance a felicidade e seja bem sucedida nos seus planos e projetos, sempre sob a proteção de Deus.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Fatos e opinião

 O Natal, a Igreja e a opção preferencial pelos pobres

Chegou dezembro, e novamente uma parcela significativa da humanidade se dedica a festejar o nascimento de Jesus Cristo, o Filho prometido por Deus, o verbo que, segundo os Livros bíblicos de Gênesis e João (1, 1-18), já existia desde a criação do mundo, mas somente milênios adiante se fez carne e veio habitar entre nós, assumindo uma composição humana, sem perder a condição de Deus Filho. Muitas denominações cristãs celebram a data. Inegavelmente, a Igreja Católica ainda reúne a maior quantidade de fiéis cristãos que tornam esse período um momento de maior celebração em torno do nascimento de Emanuel.

A Igreja Católica e Apostólica Romana, a maior das Igrejas a congregar fiéis cristãos ao redor do mundo, viveu fases e períodos históricos diferentes, com altos e baixos ao longo da sua rica história. Dos erros da Idade Média, passando pelo enfrentamento da Reforma Protestante ocorrida em fins do período medieval (século XVI), até os dias atuais, a Madre Igreja Católica experimentou calmarias seculares e também tempestades que mudaram o rumo da História. Mas ela sobreviveu a tudo, e continua a reunir o maior número de cristãos, que continuam a ser maioria entre os adeptos de religiões pelo mundo.

Fazendo-se um recorte mais curto da História, vimos que, a partir dos anos 1960, surgiu na América Latina, dentro da Igreja Católica, após o Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação, uma corrente cristã-católica que alia a fé ao combate das injustiças sociais, econômicas e políticas que oprimem a camada mais pobre da população.

Adotando o lema de “opção preferencial pelos pobres”, a Teologia da Libertação defende que é preciso ocorrer a libertação das estruturas de pecado que geram miséria e opressão. Em suma, é preciso lutar pela libertação dos oprimidos.

A Teologia da Libertação foi defendida e difundida por nomes de peso na América Latina, como Gustavo Gutierrez, Leonardo Boff e muitos outros. Com o método “ver, julgar, agir”, inspirou a formação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica e, mais recentemente, encontrou forte eco nas palavras do Papa Francisco (in memoriam), que por diversas vezes defendeu que a Igreja deve fazer a opção preferencial pelos pobres.

No entanto, a Teologia da Libertação, desde o seu nascimento, foi fortemente combatida por setores mais conservadores da própria Igreja Católica, inclusive porque se dizia – dentre outros argumentos – que a doutrina tinha elementos conceituais dos ensinamentos de Karl Marx e Friedrich Engels, economistas que criaram a base teórica do Comunismo no século XIX.

Aproveitando-se da crítica que se fazia à Teologia da Libertação, denominações cristãs-pentecostais difundiram com maior ênfase a Teologia da Prosperidade, que se apega com ênfase – de forma equivocada, que se diga – ao Livro de Malaquias, do Velho Testamento bíblico, para, a grosso modo, prometer prosperidade e aquisição de bens materiais de forma fácil aos fiéis (o profeta Malaquias não pregou desta forma!). Doutrinariamente, em linguagem mais rebuscada, a Teoria da Prosperidade defende que a abundância material é o desejo de Deus para seus fiéis.

Todavia, na prática, a prosperidade material verificada é apenas a de alguns “líderes religiosos” de parte do segmento protestante ou evangélico, que esbanjam uma vida de luxo e de muito poder econômico, em detrimento do sofrimento diário do imenso rebanho cristão que “lideram”, rebanho este que continua a sofrer as atribulações diárias decorrentes de um sistema em que se vende barato a força do trabalho para o enriquecimento de uns poucos.

Aliás, em parêntese, diga-se que o comportamento de algumas lideranças autodenominadas evangélicas destoa diametralmente da conduta humana e cristã de Martin Luther King Jr., que foi pastor da Igreja Batista e um ativista incansável, que lutou bravamente pelos direitos humanos e civis da comunidade negra nos Estados Unidos da América. Viveu em função da defesa dos direitos dos irmãos negros, até que foi assassinado em 04 de abril de 1968.

Pois bem, voltando-se à Teologia da Libertação, diga-se que, diminuída em sua importância e praticamente erradicada, na prática, no seio da Igreja Católica, a referida Teologia deu lugar à pregação da salvação da alma pura e simples e aos ritos religiosos seculares, sem o olhar voltado como outrora  para a gigantesca problemática social, composta de muitos oprimidos; de uma parcela da sociedade marginalizada pelo enorme fosso que cada vez mais separa ricos de pobres; e pelas mazelas decorrentes de um sistema que funciona para agradar ao “mercado”, denominação simplista de uma engrenagem maior, em que o lucro exacerbado e o aumento da riqueza de uns poucos justificam o engessamento de qualquer voz que se faça contrária a isto na política, nos movimentos sociais e, infelizmente, também nas igrejas.

Entretanto, mesmo sem a visibilidade de antes, a Teologia da Libertação continuou a inspirar o trabalho de muitos dentro do clero. O Papa Francisco foi um deles. Não foram poucas as oportunidades em que ele, abertamente, defendeu que a Igreja deve fazer a opção pelos pobres. O Papa Leão XIV, que, embora seja nascido nos Estados Unidos da América, teve destacada atuação no Peru nas décadas de oitenta e noventa do século passado, também já deixou ver que tem pensamento similar ao seu antecessor. Na sua primeira Missa de Natal, em 2025, destacou que “negar ajuda aos pobres é rejeitar a Deus”.

Nesse viés, e até antes dos dois últimos Santos Padres, o sacerdote Hélder Pessoa Câmara, ou Dom Hélder Câmara, teve uma vida dedicada à defesa de quem mais necessitava. Durante a ditadura militar, que prendeu, agrediu, matou e desapareceu com muitos brasileiros, o arcebispo emérito de Olinda e Recife defendeu os direitos humanos em pleno regime militar. Ao longo da sua vida sacerdotal, pregou que a Igreja fosse voltada para os pobres.

Nascido em Fortaleza, no Ceará, em 1909, Dom Hélder Câmara, que foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, pôs em prática os verdadeiros ensinamentos cristãos. Deixou frases emblemáticas, dentre elas a de que: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo; quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”. Em 1999, com a sua morte, ocorrida em Pernambuco, o Brasil e a Igreja perderam um grande defensor do ideal da “opção preferencial pelos pobres”.

Líderes religiosos como Dom Hélder certamente inspiraram muitos outros cristãos a aliarem a fé à defesa dos pobres e oprimidos. Brasil afora, muitos perderam suas vidas, justamente porque se opuseram a injustiças sociais, políticas e econômicas; ou porque fizeram opção manifesta e clara pelos pobres.

No Brasil de agora, um sacerdote tem chamado a atenção de todos por sua vasta, eficaz e eminentemente cristã atuação em favor dos pobres e marginalizados. O padre Júlio Renato Lancellotti diariamente sai às ruas para abraçar, acolher e alimentar moradores de rua. Leva-lhes alimento para a alma e um pouco de conforto material. É o pároco da Paróquia de São Miguel Arcanjo, do Bairro da Mooca, na cidade de São Paulo, e costuma celebrar as missas na Capela da Universidade São Judas Tadeu.

O padre Júlio Lancellotti é o vigário episcopal da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, e tem feito da sua atuação diária um exercício contundente da prática cristã. Na sua Paróquia, acolhe, abraça, aconselha alimenta e lida diretamente com as pessoas que mais precisam desse acolhimento e dessa atenção. São moradores de rua, que perderam tudo, mas certamente, em razão do agir do padre Júlio e da sua voluntariosa equipe, não perderam de tudo a esperança em dias melhores, mais justos, de menos sofrimento.

Como todos os outros que agiram semelhantemente, o padre Júlio Lancellotti encontra resistências ao seu trabalho. Políticos paulistanos pensaram em criar normas jurídicas para punir quem alimenta moradores de rua, numa clara tentativa de impedir o trabalho do padre Júlio Lancellotti; a Câmara Municipal de São Paulo cogitou instaurar uma Comissão Especial de Inquérito para investigar a atuação do sacerdote; pessoas de má índole diariamente xingam e ofendem o sacerdote nas redes sociais virtuais, e por aí segue o festival de horrores de quem se opõe a uma atuação sacerdotal voltada para os pobres.

Enquanto o padre Júlio atua nas periferias e promove um enorme bem social e espiritual para quem mais necessita, nos púlpitos de algumas igrejas evangélicas o que se vê é o oferecimento de vantagens materiais de fácil aquisição (que não vêm, exceto para alguns), a exploração de fiéis através de doações que às vezes até lhe fazem falta para as necessidades mais básicas (em detrimento do enriquecimento exacerbado de algumas “lideranças”), a defesa de um País armado (quando se deveria falar de paz) e a total repressão a qualquer ideia de se levar ajuda a quem mais precisa (chamam a isto de “comunismo”).

Também na contramão da opção preferencial pelos pobres, nos Estados de Minas Gerais e Santa Catarina alguns prefeitos e até um pastor evangélico foram filmados expulsando moradores de rua egressos de outros Municípios e de outros Estados. E muitos deles, que cometem esta atrocidade, se autointitulam “cristãos” e “cidadãos de bem”.

Enquanto isso, seguem a censura e as ameaças ao trabalho verdadeiramente cristão do padre Júlio Lancellotti, como surgirão os mesmos empecilhos a qualquer líder religioso que ouse atuar como ele. O capital que cria o produto das desigualdades entre os homens também é despido de qualquer sentimento de humanismo para lidar com seus marginalizados.

No entanto, é preciso continuar a se combater tantas desigualdades sociais e econômicas. Assim fazendo, estar-se-á seguindo verdadeiramente os passos de Jesus Cristo, mas também se estará atraindo contra si a fúria daqueles que compõem a camada social dos privilegiados. No entanto, isto não deve servir de desestímulo, afinal o próprio Jesus Cristo anunciou que os que defendessem o seu nome seriam perseguidos. Exemplo disso foi Estêvão, que ainda na Igreja primitiva defendeu o nome de Jesus Cristo e morreu por apedrejamento, sob a acusação de blasfêmia. Tornou-se o primeiro mártir da Igreja Católica, sendo posteriormente reconhecido como Santo, justamente por sua vida dedicada à prática cristã.

Em tempos de aceleramento da destruição da natureza, faz-se imperativo adicionar a esta luta em favor dos oprimidos a defesa intransigente da conservação do meio ambiente, porque a sua destruição também é motivo de aumento das desigualdades sociais, e porque também o espaço em que se vive deve ser compreendido pelos cristãos como presente de Deus para eles.

Esses apontamentos vieram à lembrança justamente em razão do Natal, quando os cristãos de todo o mundo (com pequenas exceções) celebram o nascimento de Jesus Cristo, o Filho prometido por Deus ao seu povo, o redentor de todos os pecados, o Emanuel, o descendente da Casa de Davi.

Talvez uma enorme parcela dos que celebram o nascimento de Jesus ainda não tenha compreendido que o Papai Noel não é a figura principal da festa, nem que o mais importante não são as confraternizações e as trocas de presentes próprias do período. Possivelmente nem se lembrem esses fieis que o fato de Jesus nascer nos arredores de Belém, numa manjedoura, dentro de uma estribaria, próximo aos animais, tenha sido uma manifesta opção pelos pobres da parte de Deus, que fez Seu Filho chegar ao mundo, na forma humana, longe dos palácios reais e através da singela Maria, para ser criado pelo carpinteiro José, na então insignificante Nazaré da Galiléia, longe da elite econômica e religiosa do povo judeu, que se concentrava principalmente em Jerusalém e Tiberíades. Tudo isso pode ser compreendido como “opção preferencial pelos pobres”.

Por sinal, essa opção preferencial pelos pobres foi uma marca constante na vida de Jesus, que, longe das elites judaicas, resolveu pregar a boa nova na periferia, onde mais anunciou o Reino de Deus, e onde operou milagres, curou doentes, alimentou famintos e buscou as ovelhas perdidas do rebanho. A vida de Jesus Cristo faz ver que Ele fez clara opção pelos pobres.

Depois de celebrar o nascimento de Jesus Cristo, a Igreja festejou a Sagrada Família e as celebrações seguem até o Festa de Santos Reis, já em janeiro, em homenagem aos Reis Magos que visitaram o Menino Jesus ainda na cidade de Belém.

Mas, fora desse período, nunca é tarde para que a Igreja se lembre dos ensinamentos de Jesus Cristo, e, como Igreja, que os fiéis cristãos façam sempre a opção preferencial pelos pobres e a defesa veemente da conservação do meio ambiente. Inexiste empecilho em se aliar a prática da fé ao exercício do combate às desigualdades sociais e econômicas. O método “ver, julgar, agir”, que inspirou as Comunidades Eclesiais de Base, não caiu em desuno, e, como cristãos, é possível a todos dar enorme contributo à melhoria de vida das pessoas, por diferentes tipos de ações. Dom Hélder Câmara e Padre Júlio Lancellotti já mostraram como se faz isto. A aplicação da Teologia da Libertação, ou de parte da sua doutrina, não impede nem atrapalha o culto a Deus e a busca do conforto espiritual aos fiéis, mas, ao contrário, fortalece a busca pela construção do que se entende como o Reino do Céu.

Alcimar Antônio de Souza

Advogado, membro da Associação dos Poetas e Artistas do Junco – APAJ e filho de catequista

domingo, 24 de agosto de 2025

Origens

Reencontros

A minha rebeldia sem causa de adolescente me fazia pensar que Dia das Mães e Dia dos Pais eram apenas datas comerciais, criadas para impulsionar as vendas da indústria e do comércio. Mas a minha sensatez proveniente da maturidade me trouxe um olhar diferente para essas datas. Em mais um Dia dos Pais, ocorrido recentemente, pus os pés da alma num terreno composto pela saudade e pelas lembranças de toda uma vida, e caminhei pela estrada das recordações que nos fazem bem.

O caminho imaginário trilhado é o da reflexão, que me leva a reencontros. E o primeiro destes é com meu pai, justamente em razão da data alusiva aos pais.

O ano era 1988. Eu tinha dezesseis anos de idade quando recebi a notícia da morte do meu pai, José Antônio Filho. Apesar da idade de adolescente, ou talvez em função dela, naquele momento não compreendi a exatidão daquela perda, nem as suas consequências reais na vida de um filho. E isso em muito se explicava pelo fato de eu ter sido criado sem a presença física do mau pai desde os quatro ou cinco anos de idade, quando ele e a minha mãe, Maria José de Souza, ou Maria do Junco, separaram-se em definitivo.

José Antônio Filho, filho de José Antônio de Oliveira e Antônia Sebastiana de Jesus, ingressou nos quadros da Polícia Militar do Rio Grande do Norte e saiu da sua terra natal, Jaçanã, na região do Trairi potiguar, para trabalhar na região Oeste do Estado. Em Patu, o soldado Filho (seu nome de guerra na corporação) conheceu a então candidata a noviça Maria José de Souza, que até então frequentava conventos e se acompanhava com muita frequência de muitas religiosas, no trabalho voluntário que realizava a serviço da Igreja Católica.

Os dois se casaram e moraram inicialmente em Patu, em vários endereços diferentes. A casa estava sempre cheia, pois abrigava parentes e amigos que deixavam Messias Targino para buscar a continuidade dos estudos na cidade de Patu. Se mamãe os acolheu bem, papai também os acolheu assim, pois carregava consigo – e isso ouvi de todos os que moravam com eles – um jeito fácil de fazer amizade e de se relacionar com as pessoas. A propósito, a família de mamãe logo o recebeu de braços abertos, e ele se fez de acolhido desde cedo.

Além dos parentes e amigos que buscaram a casa de papai e mamãe em Patu para estudar, os dois também tomaram como “filhas” Rita Dalvacir (“Pequena”, de Patu) e Lindalva (de Messias Targino), pessoas a quem ainda hoje me dirijo como irmãs.

A serviço da Polícia Militar, meu pai foi transferido para trabalhar em Natal. Fomos juntos, eu e minha mãe. Até então, éramos essa família. As poucas lembranças da tenra idade, complementadas pelos relatos que ouvi ao longo de décadas, fazem-me saber que fomos residir numa pequena casa localizada nos fundos do imóvel residencial do professor Júlio Benedito, educador messience que depois deu nome à principal escola do Município.

A estadia na capital potiguar durou pouco tempo. O casal se separou. Papai voltou para Jaçanã, onde tinha grande – e excelente – família, e mamãe e eu voltamos para o Oeste norte-rio-grandense. Passamos a morar em Messias Targino. Eu tinha entre quatro e cinco anos de idade.

A partir de então, perdemos o contato – eu e meu pai -, pois as condições financeiras de cada um (da minha mãe e dele) não permitiam um convívio mais próximo entre pai e filho, afinal, Jaçanã e Messias Targino estão razoavelmente distantes. E aqueles anos de maior dureza financeira para a imensa maioria do povo mais pobre do sertão nordestino não permitiam muitos projetos de vida além do esforço permanente de tentar sobreviver. Viajar para longe, então, era quase um artigo de luxo.

Ser criado sem pai (e não era culpa dele) não é situação das melhores, ao menos para um sentimentalista romântico como eu, notadamente numa sociedade que, há quatro décadas atrás, era ainda mais patriarcal e cheia de preconceitos.

Mesmo com tantas dificuldades, lembro-me que meu pai veio a Messias Targino uma ou duas vezes, para me ver.

Um registro devo fazer: apesar da pouca instrução escolar, a minha mãe nunca falou mal de meu pai para mim, e nunca permitiu que o fizessem. Nem havia motivos, nem ela deixou que comentários da espécie aumentassem ainda mais a lonjura que já existia entre pai e filho.

Outro registro também devo fazer: a minha mãe, sabedora de que a distância corrói os laços afetivos, mesmo aqueles que devem existir entre pai e filho, passou a me levar a Jaçanã, para ver o meu pai e a minha família paterna, a cada dois ou três anos. O intervalo de tempo geralmente coincidia com o intervalo de chuvas nesse sertão de meu Deus, afinal, em tempos de bonança (ou de chuvas abundantes), existia também significativa melhoria em nossas condições de vida, com um aumento de esperança para se escapar das estiagens que certamente viriam mais adiante, nos anos seguintes.

Saíamos de Messias Targino para embarcar num ônibus da empresa Jardinense que passava por Patu, vindo de Pau dos Ferros, rumo a Natal, atravessando parte da Paraíba e quase todo o Seridó potiguar. Descíamos em Santa Cruz, já na região do Trairi, onde esperávamos outro ônibus, vindo de Natal, direto para Jaçanã.

O embarque nesse segundo ônibus me fazia uma criança (e mais tarde um adolescente) ainda mais feliz. A ideia de ver a minha outra família alegrava o meu coração. A paisagem existente na serra, de muito verde, inclusive dos muitos campos de sisal (que já não existem por lá), pintava em cores os meus pensamentos. Chegar a Coronel Ezequiel era a certeza de que, em minutos, estaríamos entrando pela via principal de Jaçanã.

Ao chegarmos ao destino, a partir da segunda viagem, eu já sabia que, na principal parada do ônibus, num cruzamento de duas ruas bastante largas, andaríamos a pé por uma pequena distância, e chegaríamos à casa de tia Mercês (irmã de papai) e tio Zé dos Santos (esposo de tia Mercês, a quem sempre chamei de tio), na Vila Nossa Senhora de Fátima, em Jaçanã.

Ali começavam vinte ou trinta dias de reencontro com a outra parte de mim, com as raízes familiares advindas do ex-soldado Filho. Nesse período, visitávamos meus tios, tias, primos e primas, espalhados por Jaçanã e também em Nova Floresta, no vizinho Estado da Paraíba.

Meu pai, que havia deixado as fileiras da corporação castrense, nem sempre estava em Jaçanã, pois saía bastante para trabalhar em outros lugares. Quando estava, tínhamos um reencontro. Mas confesso que a distância geográfica e o enorme lapso temporal sem contato, aliados à minha pouca idade, tornavam esses reencontros uns momentos de poucas conversas, de poucos abraços. E isso não era culpa minha, nem dele; certamente da distância e do tempo que nos separavam; ou do destino, quem sabe.

Em Jaçanã, um dos destinos mais esperados por mim era a visita ao Sítio Gurjaú, onde moraram por décadas meu avô José Antônio de Oliveira, popularmente conhecido por José Polucena (ou Pulucena), e minha avó Antônia Sebastiana de Jesus.

Meu convívio esporádico (nós nos víamos a cada dois ou três anos) era com a minha avó, pois nesse período meu avô paterno já não estava entre nós. E minha avó Antônia Sebastiana estava entre os seres humanos mais doces e amáveis que já conheci na vida. E isso pode parecer redundância, pois os avós, em geral, já são criaturas doces em relação aos netos. E, mesmo aparecendo apenas a cada dois ou três anos, eu recebia da minha avó Antônia um carinho que parecia ter sido guardado pelo tempo de espera, entregue de uma só vez em poucos dias de convívio. O sentimento represado de parte a parte transbordava em poucos dias, como um açude do sertão que espera a chuva de dois ou três para somente depois atingir a sua cota de armazenamento de água.

O sítio era pequeno. Grande mesmo era a generosidade da minha avó. A depender da época do ano em que fôssemos para lá, encontraríamos, além da acolhida calorosa, muitas frutas, pois no pequeno imóvel rural havia mangueiras, cajueiros, jaqueiras, goiabeiras e, ainda me recordo, uns poucos “pés de café”.

Afora o carinho, a minha avó me presenteava com beijus cujo sabor ainda não encontrei em outros beijus que provei em outros lugares). E, não raro, trazia-me uma pequena bacia com mangas colhidas no dia. O cheiro não era propriamente das mangas. Elas exalavam todo aquele amor que apenas uma avó é capaz de dar a um neto. E penso que certamente eu estava longe de ser o seu preferido, pois havia outros, inclusive mais velhos, que estavam o ano todo mais pertos dela. Nem por isso eu deixava de ser agraciado com essa porção inesgotável de afeto que uma avó sabe dar a um neto.

Um dos momentos mais marcantes para aquele garoto que pouco conhecia do mundo foi fazer uma viagem com a minha avó Antônia Sebastiana até a cidade de Cuité, na Paraíba, a bordo de um caminhão antigo do tipo misto, de boleia maior que o habitual e de carroceira imensa, que ia cheia de agave (sisal), outras mercadorias e muita gente, inclusive eu, mamãe, e minha avó. Era um dia de realização da feira popular em Cuité, e ali passamos parte do dia.

Em razão da idade avançada e dos cuidados que isto requer, a minha avó foi morar na cidade, em Jaçanã, e ainda me lembro de tê-la visitado em sua nova morada, onde o acolhimento era o mesmo. Já não existia aquele pomar sob o qual eu brincava quando era criança, mas o amor de avó continuava intacto.

Em Jaçanã, fiquei hospedado mais vezes na casa de tia Mercês e tio Zé dos Santos. Mas também fiquei em casas de outros parentes, que igualmente me receberam com a mesma fidalguia.

O tempo passou. A vida nos exigiu obrigações. Os caminhos nos levaram para ainda mais distantes uns dos outros. Acredito que isso acontece com quase todo mundo. Depois de muito tempo, fiz duas viagens sozinho para Jaçanã: fui a Santa Cruz para um trabalho, e de lá subi a serra. Outra vez, com tristeza, fui para o sepultamento da minha avó Antônia Sebastiana.

Durante toda a infância e adolescência, nos anos em que não íamos visitar os parentes paternos, mamãe mantinha a comunicação através de cartas. O único telefone disponível em Messias Targino era o do Posto da Telern, de uso comunitário. E a tarifa não era tão barata. Era melhor usar um dos mais antigos meios de comunicação entre as pessoas: as cartas. Mamãe dizia o que queria comunicar, e eu era nomeado seu escrevente.

Como marca indelével do meu pai, José Antônio Filho, herdei a aparência física, e, segundo o contador Miguel Arcanjo de Almeida Filho, amigo de papai, herdei também o jeito geralmente mais calmo de falar.

De fato, essa enorme semelhança física está num dos raros registros de família, precisamente num retrato que por anos ficou na parede da casa de mamãe, que, mesmo separada de papai, fez questão de manter o quadro.

E a aparência, que me faz muito bem enquanto pessoa, pois mostra de onde vim, também me foi dita em algumas ocasiões. Tia Mercês, de saudosa memória, brincou comigo até quando eu já estava adulto. Costumava pegar nas minhas bochechas, dizendo que eram parecidas com as de papai, para depois me dar na face um beijo carinhoso que mais parecia o beijo de uma mãe, de tanto que ela gostava de mim.

Certa vez íamos para o Sítio Gurjaú, a pé, em estradas carroçais ladeadas por plantações de agave e muitas árvores frutíferas. Ao passarmos em frente a uma casa, ouvi quando alguém, à porta, comentou: “É o filho de Zezinho”. Zezinho Polucena, ou simplesmente Zezinho, era como meu pai era conhecido em Jaçanã. Filho (do soldado Filho) era como ele era conhecido por essas bandas do Oeste potiguar. E eu nunca havia visto aquela pessoa, e, pelos comentários da família, ela também nunca havia me visto antes. O fato de eu estar entre familiares do meu pai e, certamente, a minha aparência idêntica, fizeram-na concluir que eu também tinha raízes fincadas naquele chão.

Outra vez eu voltava de Mossoró para Patu, já homem feito, e, ao passar por Caraúbas, vi que um policial militar da reserva, na época a serviço da Guarda Patrimonial criada para colocar em atividade militares da reserva, esperava uma condução. Pela farda e pela idade do senhor, parei e ofereci a carona. Uns metros à frente iniciamos um diálogo. Ele me disse que, quando esteve na ativa, há décadas, havia sido lotado na Companhia de Polícia Militar de Patu. Alegre, eu lhe disse que o meu pai também havia sido lotado naquela unidade. Sem que desse tempo de eu lhe dizer o nome, ele me reconheceu (ou reconheceu meu pai), dizendo-me: “Você é filho do soldado Filho”. A surpresa me arrepiou os pelos, mas também me deixou imensamente feliz.

O tempo, que traz maturidade, traz também distanciamento. Só não pode nos trazer o esquecimento de pessoas importantes, valores relevantes, momentos que nos marcaram. E foi justamente porque nunca esqueci as minhas raízes paternas que, depois de duas décadas, voltei a Jaçanã em 2019. Deus, a quem se atribui popularmente o dom de escrever certo por linhas tortas, pôs em minha frente um motivo profissional para voltar a Jaçanã. Fiz disso uma grande ocasião para rever os familiares paternos. Estiquei a estadia por alguns dias, e, na medida do possível, fui a diversas casas Entre conversas e abraços, tive reencontros que me encheram de emoção.

Ainda deu tempo de ver tia Mercês, que já não está entre nós e que, pelo bem que fez na terra, certamente recebeu do Senhor Deus um lugar precioso no Reino dos Céus. Outros tios e tias paternos igualmente já não estão nesse mundo. A eles e elas, devo muito, de tanto carinho e tantos aprendizados recebidos, mesmo que a cada dois ou três anos, mesmo que por tão pouco tempo de convivência.

Depois de mais de duas décadas sem vista presencial, as primas Neide e Maria das Graças passaram rapidamente em Patu. Pude vê-las e diminuir a saudade. Isso ocorreu antes de eu retornar a Jaçanã no ano de 2019.

E, como dito, voltei a Jaçanã em 2019. Levei comigo a esposa Elizângela e a filha mais nova Maria Rita. Fui outra vez ao cenário de grande parte da minha infância e da minha adolescência. No retorno para casa, em 2019, chorei silenciosamente, como o fazia quando era criança ou adolescente a cada despedida.

Pouco tempo depois, já durante a pandemia do novo coronavírus, recebi a triste notícia da morte de minha tia Mercês.

Passada a pandemia da Covid-19, fui novamente a Jaçanã, e desta vez levei comigo também o filho mais velho, João Vítor. Apresentei-o a grande parte da família do meu pai.

A tecnologia tem nos permitido um contato remoto frequente, o que significa muito para mim, pois, se tenho orgulho das origens maternas (Almeida, Tomaz, Fernandes, Jales e Souza), tenho também muito orgulho das minhas origens paternas, considerando-me um autêntico Oliveira ou Polucena.

Como parte desse orgulho, eu pretendia dar o nome de José Antônio a um possível filho, que foi concebido no ventre de Elizângela no ano de 2024, cuja gravidez infelizmente foi interrompida por causas naturais ainda no início. Avisei: Se for menino, terá o nome de José Antônio, em justa homenagem ao meu pai e ao meu avô paterno. Não foi possível, e não fui questionar os desígnios de Deus.

Se Deus assim permitir, pretendo voltar a Jaçanã outras vezes. O relógio natural da vida aponta agora com muita ênfase uma contagem regressiva de tempo, cada vez mais curto. Como dizia o amigo, poeta e grande advogado Ribamar Ferreira de Lima, de saudosa memória, “dobramos o Cabo da Boa Esperança”. Então, é preciso estarmos ao lado dos nossos enquanto o ponteiro desse relógio ainda tem – imagino – voltas a concluir.

Em dias de hoje, talvez uma ou outra pessoa menos conhecedora do assunto até remetesse toda essa abordagem do tema a uma possível questão de saúde mental, sob o argumento de possivelmente existirem cicatrizes de feridas curadas lentamente pelo tempo, que ainda estariam com aquela “casquinha” de pele pronta para ser tirada com as mãos, já sem dor, como fazíamos quando crianças. Particularmente, posso dizer que se trata mesmo de mistura de saudade com necessidade de falar um pouco sobre meu pai e tudo o que vem da parte dele, motivado pela passagem recente do Dia dos Pais, que abriu para mim, cristão-católico, as celebrações da Semana da Família, agora encerrada.

Mais que isso, senti a necessidade de voltar no tempo. De fato, se fosse possível um efetivo retorno no tempo, com o entendimento dos fatos como agora o tenho, talvez eu pediria desculpas a meu pai pela não compreensão de tudo; certamente eu lhe pediria um abraço, abraço este que me fez muita falta ao longo de décadas.

E, de frente para aquela simpatia que era Zezinho Polucena (ou Filho, para nós), eu teria muito orgulho de lhe apresentar os netos: João Vitor, Clara Beatriz, Isac Pablo e Maria Rita.

Saudade de você, meu pai!

Alcimar Antônio de Souza


domingo, 26 de janeiro de 2025

Origens

Recordações de uma vida

A casa humilde situada na rua principal de Messias Targino, onde passei a maior parte da infância e da adolescência, estava localizada entre a Boate Sândalus, de Dedeca Jales, depois arrendada a Francisco Borges de Andrade, e um bar, que teve vários proprietários, sendo Francimar Borges de Andrade aquele que mais tempo ficou no local.

Quando a Boate Sândalus estava sob a direção do amigo Dedeca Jales, de saudosa memória, tínhamos na sua lista de músicas os clássicos cantados por Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, Roberto Carlos, e muitos outros.

Antes de chegar à Boate Sândalus, Francisco Borges explorou por muito tempo o bar Chapéu da Bruxa, localizado ao lado da Boate Sândalus, cujo som também se espalhava nas noites de sábado e domingo até perto da minha casa, a depender da direção do vento.

Com Borges à frente do bar Chapéu da Bruxa ou mesmo dirigindo a Boate Sândalus, houve mudança no leque de variedades musicais, inclusive porque os anos oitenta do século passado foram de muita euforia musical, com agigantada produção da chamada música popular brasileira e de vários ritmos, como pop, rock (internacional e nacional) e uma enxurrada de artistas e bandas da Bahia. Nos anos noventa, um novo pagode, com sotaque eletrônico, mas sem perder a essência, também se ouvia pelas caixas de som da Boate Sândalus.

Nos anos setenta e oitenta do século passado, aos domingos, bares espalhados ao longo do Mercado Público tocavam clássicos da música brega e do forró de então, alguns deles usando pequenas radiolas cujas tampas funcionavam como caixas de som. A sonoridade peculiar dos discos de vinil ecoava pelas ruas do Centro de Messias Targino.

Já nos anos noventa do século passado, se não me falha a memória, os irmãos Francimar e Borges, donos da Discoteca Irmãos Borges, que se apresentava em Messias Targino e em toda a região, trataram de abrir o Recantus Bar. A variedade musical era igualmente boa, e os equipamentos potentes de som levavam aquela diversidade musical pelas ruas da cidade, sempre aos sábados e domingos, quando o ambiente abria ao público.

Então cresci ouvindo músicas de excelente qualidade, e isso nunca nos tirou o sono. Aliás, eu até dormia melhor quando qualquer desses ambientes estava funcionando.

Na Boate Sândalus, no período em que Dedeca Jales estava à sua frente, algumas festas-bailes aconteceram. Sem idade para frequentar esses ambientes, e dada a rigidez de mamãe, a catequista Maria José de Souza (ou Maria do Junco), eu apenas me contentava em ouvir nas tardes, que antecediam a cada noite de cada festa, o ajuste do som das bandas, a famosa passagem de som.

À noite, quando a banda começava a tocar, eu me deliciava, naquela rede surrada, com os acordes daquela música feita ao vivo, executada totalmente na hora, sem “playback”.

Já adolescente, na segunda metade dos anos oitenta em diante, eu podia frequentar, vez por outra, os bailes que se realizavam na Boate Skorpius, que passou a ser na época a principal casa de eventos do gênero em Messias Targino.

Na cidade pequena, o alvoroço começava quando a banda chegava. Era grande a curiosidade de muitos para ouvir (e se possível presenciar) a passagem do som. Durante a festa, ou o baile, eu não era o único que dedicava pelo menos vinte ou trinta minutos para ficar bem em frente à banda, contemplando a execução das músicas que eram sucesso na época.

Quando a cidade recebia uma banda de maior expressão na região ou no Estado, a nossa curiosidade aumentava ainda mais. Conseguir o valor do ingresso e uns trocados a mais para molhar a garganta e causar leves danos ao fígado era a missão do dia, afinal, a noite prometia, a festa iria ser boa, e finalmente aquele mês seria diferente para todos nós.

Nomes como Montagem (de Natal), Terríveis (de Natal), Impacto Cinco (de Natal), Elo Musical (de Mossoró), Trepidant´s (de Recife), Circuito Musical (de Caicó), Tártaros (de Currais Novos), Bárbaros (de Mossoró), dentre outros, eram, para nós, atrações musicais de excelência. Grafith, então, causou enorme alvoroço quando foi se apresentar pela primeira vez a Messias Targino, num período em que a banda ainda tocava o estilo baile e ainda tocava totalmente ao vivo.

Uma vez por ano, ficávamos à espera da festa de “A Mais Bela Voz”, um concurso de música promovido pela Rádio Rural de Mossoró e pela Rádio Rural de Caicó em dezenas de cidades do interior do Rio Grande do Norte. Os ensaios eliminatórios ocorriam à tarde, ocasião em que os candidatos e a banda tentavam se ajustar. Uns poucos desafinados já eram eliminados ali mesmo. Os demais iriam se apresentar à noite. Do ensaio em diante, o povo já escolhia os seus favoritos e já palpitava sobre o possível ganhador do concurso, que iria representar Messias Targino na grande final do certame, ocorrida em Mossoró (se a promoção do evento fosse da Rádio Rural mossoroense) ou em Caicó (se o evento fosse realizado pela Rádio Rural caicoense).

A boa seresta também fez parte das nossas vidas. Não existe cidade pequena que, num passado recente, não tenha sido palco de seresteiros, famosos ou não. Em Messias Targino, o filho da terra Zé Galego (conhecido em Mossoró como J. Jales) certamente foi o que mais se apresentou em noites de serestas. Mas tivemos vários outros, inclusive o fenômeno regional da época, Maguila, que se autodenominou de “O Mago dos Teclados”.

Getúlio Oliveira Lima (de saudosa memória), Alísson Araújo, Francisco Eudes, Marquessoel Bezerra Pinto (que anos à frente se tornaria meu compadre), Robson Pinto (também compadre anos depois), Genésio Francisco Pinto Neto (“Pola de Edite de Nejo”), Ronielly Almeida e tantos outros compunham uma turma que gostava dos bailes. Selávamos amizades sinceras, e juntos, todos ou em parte, gostávamos daquelas noites em que a pacata cidade se transformava num palco de festa.

Quando fomos admitidos a frequentar as confrarias de outra geração, passamos a usufruir da excelente música cantada ao som de violões dedilhados com maestria, ou os teclados inesquecíveis de Benedito Alves de Medeiros, o popular Bené da Prefeitura. Reginaldo José de Melo (Régis de Zé Pedro), Nonato Almeida, De Assis Almeida, o próprio Bené, Almeida (contador), Zé Martins e tantos outros costumavam cantar nessas confrarias informais, e de tudo se ouvia um pouco (do melhor da música brasileira).  Cresci ouvindo esse pessoal.

Nessa época, o único “excesso” que cometíamos era ingerir bebida alcoólica. Éramos felizes com muito pouco (ou quase nada), e crescíamos levados pelo som das músicas que embalaram nossos dias e noites de fins de semana, no Bar Chapéu da Bruxa, na Boite Sândalus, no Recantus Bar, na Boate Skorpius, e em outros poucos outros ambientes comerciais existentes nessa cidadela, onde todos se conheciam pelos nomes, apelidos e até pelo gosto musical.

De lá para cá, mudaram-se os estilos musicais mais tocados, puseram fim aos bailes, muitas das bandas-bailes desapareceram e umas poucas continuam sobrevivendo à base da insistência, e o técnico da mesa de som é quem na verdade anda fazendo as apresentações, pois quase todas as bandas usam o dissimulado arquivo de áudio do tipo VS (virtual studios ou estúdio virtual).

De lá para cá, alguns amigos também partiram para o plano espiritual, e a cidade já está razoavelmente modificada em sua rotina e em seus costumes, e, graças a Deus, está significativamente mudada para melhor.

De resto, ficaram daquele tempo a saudade e as boas e verdadeiras amizades, as quais a borracha do tempo não consegue apagar, pois foram escritas com a tinta da caneta que carrega os valores de respeito, solidariedade, sinceridade e fraternidade.

Alcimar Antônio de Souza

Advogado e Membro da Associação dos Poetas e Artistas do Junco - APAJ

domingo, 26 de maio de 2024

Homenagem

NIZINHA, SINÔNIMO DE FAMÍLIA, AMOR E ACOLHIMENTO

A celebração da vida, com agradecimento a Deus e diante da família e dos muitos amigos, é algo espetacular, maravilhoso. E é isso que fazemos neste dia, no Sítio Jatobá, em agradecimento ao Pai Todo-Poderoso pela renovação do ciclo de vida de RAIMUNDA ANÍZIA ALVES, carinhosamente conhecida como DONA NIZINHA, ou, para os seus muitos sobrinhos e sobrinhas, simplesmente TIA NIZINHA.

NIZINHA é uma das muitas filhas do casal SIRINO ANDRADE NUNES e ANA MARIA FELIPE DE ANDRADE, que teve uma família numerosa, composta dos filhos FRANCISCO, RITA, MARIA, ANTÔNIO LISBOA (popular TUZINHO) e CÍCERO ROMÃO, o popular CIÇO ARROZ. Aos filhos biológicos de SIRINO e ANA ROSA se juntou TEREZA, criada pelo casal.

NIZINHA nasceu no dia 18 de maio de 1936. Casou-se com ARLINDO ALVES, conhecido servidor da REDE FERROVIÁRIA FEDERAL – RFFSA, amigo de muitas pessoas do trecho Caraúbas-Patu.

NIZINHA se casou com ARLINDO, que era de Caraúbas, e, depois de morarem nessa região, foram residir em Mossoró, mas sem nunca abandonarem as suas origens. Aliás, o amor pelo Sítio Jatobá, pela casa de seu pai SIRINO, foi marca de NIZINHA por toda a vida, e esse amor passou para o filho SÁVIO MARCELLUS, que volta e meia está no Sítio Jatobá, convivendo com familiares e revendo os muitos amigos.

O casal NIZINHA e ARLINDO teve os filhos SÔNIA MARIA DE ANDRADE ALVES, SÁVIO MARCELLUS DE ADRADE ALVES e ANDRÉ LUIZ DE ANDRADE ALVES, este último adotado ainda nos primeiros meses de vida.

Na dureza do sertão, uma criança de pouquíssima idade, do casal NIZINHA e ARILINDO, não resistiu a um acidente doméstico e morreu muito precocemente. Era uma época dificílima, de escassos recursos de saúde e de dificuldades ainda maiores.

Mas, dona de corações bondosos, que sempre guardaram um amor imenso, NIZINHA e ARLINDO criaram em sua casa ou receberam por longo tempo debaixo do seu teto diversos parentes, a maioria da família ANDRADE, e um ou outro da família de ARLINDO, que sempre apoiou NIZINHA em tudo.

GENECI ANDRADE, filha de GENTIL, foi criada como filha por NIZINHA e ARLINDO. Saiu da casa de NIZINHA apenas para se casar, depois de concluir a graduação.

ANTONIA DE FÁTIMA ANDRADE, filha de CIÇO ARROZ, também passou longo tempo na casa de NIZINHA e ARLINDO.

MARIA DÉLIA, da família de NIZINHA, foi outra parente criada como filha pelo casal NIZINHA-ARLINDO. Saiu da casa deste casal para se casar.

Outro também criado como filho foi TEOBALDO DE ANDRADE COSTA, filho de GENTIL ANDRADE. A mãe de TEOBALDO faleceu quando ele era ainda muito jovem, e, poucos dias após o sepultamento, NIZINHA o levou consigo, e lá ele ficou até concluir a graduação e se casar. Este, por sinal, assim como DÉLIA e GENECI, continua até hoje ajudando a cuidar da tia NIZINHA, em tudo o que ela precisa.

VANDILZA, parente de ARLINDO, foi outra pessoa que passou pela casa de NIZINHA, morando ali por algum período, sendo igualmente tratada como filha.

GEDILENE, neta de TUZINHO ANDRADE, foi outra que experimentou o acolhimento fraternal de NIZINHA e ARLINDO. Ela também morou lá, em Mossoró, por longo período.

JOANA DARC, esposa de DECA PEREIRA, igualmente gozou da acolhida carinhosa de ARLINDO e NIZINHA. Esteve lá para concluir o curso superior.

ANCHIETA ANDRADE, ÉMERSON (MERCINHO) e vários outros também passaram pela casa de NIZINHA e ARLINDO, em Mossoró, recebendo ali, além do teto e do alimento, um tratamento de muita dignidade, que só as pessoas de excelente coração podem oferecer.

NIZINHA tinha uma exigência para quem ia residir com ela: tinha que estudar. Ela fiscalizava de perto. Ia às escolas e procurava saber como estavam os alunos. Sabia que, além do acolhimento habitual, deveria deixar para eles o resultado explêndido da educação na vida das pessoas.

Dentro do contexto social da época, ARLINDO não era inicialmente um pretendente bem acolhido por SIRINO ANDRADE, que era contrário ao casamento. Era apenas ciúme de pai que não quer que a filha saia de casa. Mas o amor de NIZINHA por ARLINDO e vice-versa já estava maturado, já era visível.

Foi então que, sem a concessão inicial de seu pai para o casamento, NIZNHA adotou um procedimento comum na época: fugiu com ARLINDO, e os dois constituíram a belíssima família que conhecemos. Ela foi a uma novena na casa de JOAQUIM, e de lá foi com ARLINDO para a MOLHADA DA AREIA, onde os dois inicialmente fixaram residência, e onde inclusive nasceu a filha SÔNIA ANDRADE.

Depois, porém, diante da postura absolutamente correta de ARLINDO ALVES, SIRINO ANDRADE não apenas o aceitou como genro, mas o tinha na conta de um dos melhores. Os dois passaram a se relacionar com grande respeito e carinho.

CIÇO ARROZ e NIZINHA eram os filhos caçulas de SIRINO e ANA MARIA FELIPE. Talvez por isso fossem tão ligados.

Mas NIZINHA nunca demonstrou preferência por qualquer dos irmãos. Sempre tratou com muito carinho a todos, estendendo esse amor aos parentes que, em algum momento da vida, precisaram do seu acolhimento na cidade de Mossoró.

Segundo sua filha SÔNIA, um dos desejos de NIZINHA é voltar a ter uma casa no Sítio Jatobá, próximo à casa de seus pais. Pela idade, a família reluta, porque ela precisa de cuidados na saúde que um centro urbano maior pode oferecer. Isso, porém, não a afasta dessa terra amada, seu torrão, o início de sua história. Comumente ela volta para sentir o cheiro do mato, dormir sob o sereno desse chão, contar suas histórias de vida aos seus parentes, fazer-se presente no Jatobá, que tanto lhe faz bem.

Nessa terra, quando a ela vem, NIZINHA não encontra apenas os familiares. É enorme o número de amigos e pessoas queridas de NIZINHA. Todos são a representação humana de suas raízes, de suas origens, de sua vida de criança, adolescente e adulta.

Apaixonada por sua terra, temente a Deus e devota de Nossa Senhora, a Mãe de Jesus, NIZINHA se sente imensamente feliz com essa possibilidade de vir rezar coletivamente com os seus familiares e amigos nesse dia, na casa de seus pais, na presença de seus filhos e netos, na companhia de seus muitos sobrinhos e sobrinhas, amigos e pessoas do seu bem-querer.

Festejar seu aniversário de vida nessa terra, ao lado dos seus, na casa de seus pais, foi um pedido e quase uma exigência de NIZINHA a seus filhos, pedido este prontamente atendido.

Com isso, o presente de aniversário também é nosso, pois todos nós, em maior ou menor relação, devemos muito a NIZINHA, por tudo o que ela fez e ainda faz por essa família.

Parabéns, NIZINHA! Feliz aniversário! Que o Senhor Deus prolongue sua existência entre nós. E obrigado por tudo!

Alcimar Antônio de Souza

O texto foi apresentado na missa de ação de graças de RAIMUNDA ANÍZIA ALVES DE ANDRADE, celebrada no dia 18 de maio de 2024, na casa de SIRINO ANDRADE NUNES, no Sítio Jatobá, Zona Rural de Patu (RN).

O texto tem informações de SÔNIA ANDRADE ALVES (filha de NIZINHA) e MARIA DA GLÓRIA ROCHA DE ANDRADE (sobrinha de NIZINHA).


quarta-feira, 1 de maio de 2024

Origens

Dênis de "seu" Luiz

Em Messias Targino tive vários domicílios ao longo da vida. No entanto, foi na antiga Rua João Jales Dantas, atual Avenida Genuíno Fernandes Jales, bem no centro da cidade, onde passei mais tempo, desde que eu e minha mãe, Maria José de Souza, ou Maria do Junco, chegamos à cidade quando eu tinha entre quatro e cinco anos, após passagens por Patu, onde nasci e onde moramos por vários anos, e por Natal, onde residimos por algum tempo precisamente nos fundos da casa do professor Júlio Benedito, que dá nome à principal Escola da rede municipal de ensino do Município messiense.

Nessa mesma rua moravam Luiz Soares de Brito, popularmente conhecido como “seu” Luiz Vaqueiro, casado com dona Maria José Rodrigues, e sua belíssima família, da qual destaco, sem desmerecimento aos demais, o próprio “seu” Luiz, sua filha Antonia Lobato (nossa professora Antonieta ou Tieta) e outro filho de “seu” Luiz, Wendell Rodrigues de Brito.

Apesar do nome pomposo, Wendell para nós se tornou conhecido como Dênis de Luiz Vaqueiro, ou simplesmente Dênis, ou, ainda, numa simplificação mais sertaneja, Dene.

Crescemos juntos, na Rua João Jales Dantas e nos seus arredores, num tempo em que a pavimentação sequer havia chegado à nossa rua, o que nos permitia horas e mais horas de muitas brincadeiras, inclusive o tradicional joguinho de futebol.

Quando não jogávamos na própria rua, íamos bater uma bola nos fundos da casa da minha avó Noêmia e nos fundos da casa vizinha à de minha avó. Nesta casa vizinha, na época, funcionou por muitos anos um bar, que não costumava abrir cedo do dia.

Logicamente mamãe, muito severa, nem sempre permitia aquele barulho de tantos meninos tentando provar para si e para os demais que tinham algum talento para a prática desse esporte coletivo (e na verdade, não tínhamos muito).

Porém, mamãe, catequista e agente de pastoral, tinha muitos compromissos na Capela de Nossa Senhora das Graças (de Messias Targino), na Paróquia de Nossa Senhora das Dores (de Patu) e até na Diocese de Santa Luzia (de Mossoró). Não raramente se ausentava para participar de reuniões, assembleias pastorais paroquiais, assembleias pastorais diocesanas, encontros de catequistas e agentes de pastoral, e assim por diante.

Aliás, a professora Tieta teve também enorme participação, como voluntária, nos trabalhos da Capela de Nossa Senhora das Graças, além de ter sido exímia professora da rede pública de ensino.

Voltando ao nosso futebol, quando o praticávamos por trás da casa da minha avó Noêmia, contávamos com a complacência dela, que colocava em prática o jargão de que os avós gostam mais dos netos do que dos filhos, de modo que, na ausência de mamãe, nós transformávamos o quintal da sua casa num sofrido campinho de futebol.

Dênis de seu Luiz, meu primo Rondinelli Almeida, nosso amigo Getúlio Oliveira Lima (o popular Memeia de Luza de Ricardina, de saudosa memória), meu primo Vilmar de Souza (Lunga de Tronqueira) e tantos outros se juntavam nas brincadeiras diárias. Era um tempo em que não tínhamos telefone (aliás, a cidade apenas tinha o posto telefônico da TELERN, de uso coletivo), e, tirando os horários de estudo, ficávamos livres para sermos essencialmente crianças e, mais adiante, adolescentes tipicamente felizes.

O futebol, por sinal, era apenas uma das nossas atividades de passar o tempo, ou de aproveitamento da vida, ou simplesmente de fortalecimento da amizade. Tínhamos várias outras. Na adolescência, criamos uma banda musical, cujo “empresário” era Cleóbulo Ferreira (ou Cleobe de Rita de Geraldo), da qual fazíamos parte eu, Dênis e Rondinelli. Os ensaios ocorriam num prédio vazio que existia ao lado da casa de Cleóbulo, que ficava na mesma Rua João Jales Dantas, próximo à minha casa e à casa de “seu” Luiz.

O tempo passou e a vida exigiu que buscássemos caminhos diferentes. Em 1990 fui morar em Mossoró, para cursar o pré-vestibular e tentar o ingresso no ensino superior.

No caso de Wendell Rodrigues, ou Dênis de seu Luiz, ele acompanhou a sua irmã Antônia (Tieta) no rumo das Minas Gerais. Ela havia ido para aquele Estado em 1983, fixando-se em Juiz de Fora, e Dênis foi para lá, para morar, em 1992.

Depois que ele se foi para Minas Gerais, praticamente perdemos o contato, que, contudo, foi restabelecido anos mais tarde por via remota, após o surgimento das redes sociais da internet. Passei a segui-lo em suas páginas virtuais e ele também passou a me seguir. Vez por outra dizíamos alguma coisa um ao outro, mas sempre de forma concisa e com a frieza das palavras digitadas, que continuam longe de traduzir ou substituir uma conversa presencial, um abraço amigo, um aperto de mão.

Pelas redes sociais, e também por informações de sua sobrinha Regivânia Rodrigues de Almeida, que continua residindo em Messias Targino, fiquei sabendo que Dênis estava bem, havia constituído família, e se tornou pai de dois filhos (Nicolly e Luigi). E isso me deixava imensamente feliz, porque um amigo sempre fica feliz quando sabe que o outro, mesmo distante, encontra-se bem, no rumo certo.

Todavia, no último dia 14 de abril, fui surpreendido pela trágica notícia da morte do amigo Wendell Rodrigues, ou Dênis de seu Luiz. Vi a trágica notícia em página pessoal da professora Regivânia, e ela também foi informada pela professora Tieta em grupo de mensagens do qual fazemos parte.

Dênis nos deixou cedo, pois tinha apenas quarenta e nove anos de idade. No entanto, não gosto nem me atrevo a questionar os desígnios de Deus. Talvez seja verídico aquele dito popular de que “Deus leva primeiro os melhores”, pois certamente Dênis estava entre os melhores aqui na terra.

Infelizmente, a vida não nos deu a chance da última conversa presencial, de um último abraço. A distância que gera o progresso pessoal é também a distância que faz nascer a saudade.

Mesmo assim, Dênis, gostaria de lhe prestar essa última homenagem, simplória, porém cheia de sinceridade. Orgulha-nos o homem que você se tornou: responsável, trabalhador, pai exemplar.

Através de sua irmã Tieta e da sua sobrinha Regivânia, gostaria que essa singela homenagem chegasse aos seus filhos, para que eles também soubessem um pouco que, antes de partir para Minas Gerais, Wendell, ou Dênis, havia deixado raízes bem fincadas nesse solo nordestino e em terras messienses. E, mais que isso, que deixou também amigos e pessoas que gostavam muito de Dênis de seu Luiz Vaqueiro.

O pedido a Deus é para que receba Dênis de seu Luiz no Reino do Céu!

Alcimar Antônio de Souza

Um amigo

sábado, 16 de março de 2024

Origens

O Ofício

27 de novembro é o dia dedicado a Nossa Senhora das Graças, uma das muitas denominações dadas pela Igreja Católica a Maria, a Mãe de Jesus Cristo. Ela é a Padroeira de diversos Municípios do Rio Grande do Norte, incluindo-se Messias Targino, além de dar o nome a diversas Paróquias espalhadas pelo Estado.

Em 2023, a festa cristã-católica alusiva à Maria Santíssima trouxe-me uma recordação de infância, que graças a Deus nunca me saiu da lembrança. Pela correria do cotidiano, fui adiando o dia do registro, até que, nesses dias, novamente diante da Capela de Nossa Senhora das Graças, senti que preciso compartilhar essa recordação.

Em Messias Targino, meu principal ponto de moradia foi a casa de minha avó materna Noêmia Maria de Almeida, ou Noêmia de Soro (apelido de seu pai Manoel Fernandes Jales), ou Noêmia da Igreja (referência ao seu trabalho de zeladora da Capela de Nossa Senhora das Graças, por décadas).

A minha casa, na antiga Rua João Jales Dantas, agora Avenida Genuíno Fernandes Jales, estava localizada em frente à Praça Central João Jales Dantas e a poucos metros da Capela de Nossa Senhora das Graças.

Nessa época eu ainda dormia cedo, e, por consequência, também acordava mais cedo.

Em todos os dias da semana, eu geralmente acordava instigado pelo cheiro do café que a minha avó fazia, num fogão a base de lenha, encravado na arquitetura rústica e simplória da cozinha, que ficava a poucos metros da sala onde eu costumava espichar a minha rede, bem ao lado da rede da minha avó, a quem sempre fui muito apegado e por quem sempre fui muito protegido.

O café da minha avó era aquele comprado em grãos, que ela pisava num pilão de madeira de cerca de um metro de altura e depois torrava num grande tacho, no velho fogão a lenha.

Mas, aos sábados, eu era acordado por outro motivo. Não era o aroma do café que me puxava da surrada rede.

Dormindo a uma curta distância da Igreja de Nossa Senhora das Graças, de lá eu ouvia uma música lindíssima, uma entoação afinada, uma prece em forma de cânticos. Eram a minha avó Noêmia, minha mãe Maria do Junco, minha tia Rita, minhas tias-avós Áurea, Antônia e Sebastiana, minha “tia” Basta (Basta de Tonho de Rafael), minha “tia” Zira e várias outras mulheres da comunidade cantando o Ofício de Nossa Senhora das Graças.

Sim, o Ofício de Nossa Senhora das Graças, cantado, era uma tradição bastante comum na época.

Se atentarmos para o entendimento de que Canto Gregoriano é o canto litúrgico próprio da Igreja Católica, ou um gênero de música sacra cristã que tem suas raízes em tradições musicais judaicas de recitação salmódica, então podemos dizer que estávamos diante (ou a poucos metros, no meu caso) de autênticos cânticos gregorianos, entoados por pessoas humildes, de religiosidade e fé inabaláveis.

Cantavam mais com a alma do que com a voz, de tão linda que era aquela entoação. Brincavam de fazer primeira e segunda vozes, com estilo inigualável. Minha tia-avó Antônia Almeida (Toinha de Soro), por sinal, fazia uma segunda voz de causar inveja a muitos cantores profissionais.

Numa cidade pequena, de quase nenhum movimento urbano nas primeiras horas da manhã, os cânticos entoados no Ofício de Nossa Senhora transpunham as paredes bem fornidas da Capela, e, entre janelas e portas, espalhavam-se suavemente por todo o Centro da cidade.

O espanto é que grande parte do Ofício era entoado em Latim, sendo que algumas das cantoras daquele belíssimo coral sabiam pouco até mesmo de Português, a nossa língua.

Não era apenas a tradição do uso do latim pela Madre Igreja Católica que “ensinava” aquelas mulheres a cantar o Ofício de Nossa Senhora na “língua-mãe”. Acredito – e isso é convicção minha – que Deus lhes tocava profundamente o coração e a alma, e lhes dava o dom de cantarem com tanta maestria o Ofício dedicado à Mãe de Jesus Cristo, a quem Deus, através do Anjo, confiou a missão de gerar seu Filho Unigênito.

Essa lembrança me traz muitas saudades, de um tempo de vida maravilhoso (apesar das dificuldades da época) e de pessoas que nos amaram e às quais nós amamos, talvez sem nunca termos dito isso uns aos outros.

A execução do Ofício de Nossa Senhora das Graças durava, em cada sábado, cerca de quarenta e cinco minutos a uma hora. Porém, ainda hoje, de vez em quando, principalmente aos sábados, pego-me ouvindo aqueles cânticos, e vêm à minha lembrança as imagens de todas aquelas mulheres, principalmente da minha avó Noêmia, a quem muito devo por tudo o que me fez e me ensinou de bom.

Ave, cheia de graça!

Alcimar Antônio de Souza


domingo, 8 de outubro de 2023

Aconteceu em Messias Targino

O padre

Messias Targino sempre foi um Município de gente muito acolhedora. Hospitalidade foi e continua sendo uma marca de conduta do povo messience.

Outra característica de Messias Targino é que, desde a sua fundação, ainda como Povoado do Junco, o lugar nunca foi sede de Paróquia. Mesmo após a emancipação política e administrativa do solo messiense em relação ao Município de Patu, a cidade de Messias Targino, na organização pastoral da Madre Igreja Católica Apostólica Romana, continuou vinculada pastoralmente ao Município-mãe de Patu, sendo assim parte da Paróquia de Nossa Senhora das Dores, sediada na terra do Santuário do Lima.

Todavia, nem por isso a Capela de Nossa Senhora das Graças, padroeira do povo messience, deixou de ter a sua enorme relevância para a vida religiosa, social e comunitária do lugar. Inclusive ela continua sendo o seu principal cartão-postal, juntamente com a Praça Central João Jales Dantas, que lhe está à frente.

De maioria cristã-católica ainda hoje, nos idos dos anos setenta e oitenta do século passado essa maioria era ainda mais expressiva no Município de Messias Targino.

Nesse cenário, o respeito à pessoa do padre e ao seu ministério sempre foi muito grande por parte do povo cristão-católico de Messias Targino.

Pois bem, nos anos setenta e oitenta do século passado, estávamos em um tempo de pouquíssimas tecnologias na área de comunicação social. Telefone móvel não existia. Computador era algo ainda desconhecido.

Tínhamos, mesmo, o bom e velho rádio, que nos mantinha informado, e a televisão, que, na ausência de uma antena repetidora local, exigia dos poucos proprietários desse aparelho na comunidade a habilidade de girar a antena caseira (aquela em forma de T) em busca de um sinal proveniente de Martins, Brejo do Cruz ou outro local que tivesse uma antena de captação e distribuição mais potente.

Existia também o posto comunitário da TELERN (sigla da empresa estatal Telecomunicações do Rio Grande do Norte), que dispunha de duas linhas de telefone fixo para ligações telefônicas de toda a comunidade.

Nesse contexto, de costumes sertanejos feitos à base da humildade, da hospitalidade e da boa-fé das pessoas, sem muitas formas de checagem instantânea de certos fatos, surgiu em Messias Targino, lá pelos anos oitenta do século passado, um novo padre. Não era o padre que estava em atuação na Paróquia de Nossa Senhora das Dores, de Patu, nem também era conhecido do povo.

Mas, chegando o sacerdote à cidade, ele se identificou, disse pertencer à Santa Igreja Católica, e logo passou a celebrar. Anunciou que ficaria na comunidade por um certo período, numa missão de evangelização.

Sem um padre constante na cidade, pois o pároco de Patu atendia a pelo menos cinco ou seis Municípios diferentes, a chegada desse sacerdote foi até festejada. Com área pastoral enorme para cuidar, o padre de Patu somente ia a Messias Targino no último domingo de cada mês e, excepcionalmente, se houvesse algum fato a ensejar a sua presença. Logo, a chegada de um padre para ficar dias seguidos na cidade parecia ser uma boa notícia.

De fato, com a chegada desse novo padre, a Capela de Nossa Senhora das Graças estava lotada, todos os dias, durante as celebrações.

Nessa época, a minha avó materna, Noêmia Maria de Almeida, era a zeladora da Igreja de Nossa Senhora das Graças, e a minha mãe, Maria José de Souza (Maria do Junco), era catequista e agente de pastoral. Muitos da família Almeida e de outras tradicionais famílias messienses tinham ativa participação no dia a dia da Capela de Nossa Senhora das Graças, como ainda acontece hoje.

O novo padre se instalou na Casa Paroquial, que fica ao lado da Capela de Nossa Senhora das Graças, e as suas refeições (café da manhã, almoço, jantar) ficaram por conta da enorme hospitalidade do povo messiense. Nesse período, é possível que ele tenha engordado bastante, diante da grande generosidade do povo, que não se cansava de fazer doações de alimentos ao novo pastor do rebanho. Frutas e queijos chegavam bastante à sede da Casa Paroquial.

Logo nas primeiras celebrações da Santa Missa, presididas pelo novo padre, perceberam-se pequenas alterações no rito. Não era nada tão destoante do que já se conhecia, mas eram mudanças.

Até aí, nenhum problema!

Problema mesmo foi quando se descobriu que o novo padre reunia jogadores de baralho habituais da cidade para sequências de partidas no interior da Casa Paroquial, todas as noites. A comunidade passou a estranhar. Um padre viciado em baralho?

Como o padre era novato, foi convidado e aceitou a missão para lhe fazer companhia na Casa Paroquial o então jovem Genésio Francisco Pinto Neto, o popular Pôla de Edite de Nejo, que anos à frente viria a se tornar líder sindical, vereador e vice-prefeito.

Certo dia, Pôla deixou vazar a informação que o novo padre guardava uma arma de fogo entre os seus pertences.

A informação não foi amplamente divulgada, mas chegou aos ouvidos das pessoas que estavam no dia a dia da Igreja de Nossa Senhora das Graças.

Sem nada dizer a ninguém, a catequista Maria do Junco procurou a sede da Diocese de Santa Luzia, em Mossoró, para colher informações desse padre.

Ao retornar à cidade, com a informação que foi buscar, Maria do Junco se deparou com a notícia da saída repentina e desavisada do novo padre. Foi embora de Messias Targino, sem mais nem menos, ou, anoiteceu e não amanheceu, como se diz popularmente.

A fuga tinha razão de ser. Realmente ele era padre, porém era sacerdote da Igreja Católica Apostólica Brasileira, que não é a mesma Igreja Católica Apostólica Romana, na qual professamos a nossa fé.

As celebrações na Capela de Nossa Senhora das Graças diminuíram, a Casa Paroquial deixou de servir de casa de jogo de baralho e a vida religiosa do lugar voltou ao normal.

Quanto ao “padre”, nunca mais ouvimos falar a respeito dele.

Alcimar Antônio de Souza