Fragilidades...
Há dias em que a carcaça
humana já não aguenta o peso da vida. Mesmo cristão, e justamente por ser
cristão, em dias assim chego a pedir a Deus que abrevie a minha passagem neste
mundo terreno. Não ouso ir além, porque quem procura seguir a Jesus Cristo – e
não é fácil – sabe que a vida pertence a Deus, e somente a Ele.
Hoje é um desses dias. O
cansaço da lida se juntou à fadiga da alma. Nesta se forma um misto de
ansiedade, preocupação, descontentamento, tristeza, decepção, desânimo, medo. A
decepção talvez seja até maior comigo mesmo, pela ausência de pulso firme, de
coragem para certas decisões, de firmeza para cuidar dos meus. Delegar esta
tarefa, mesmo que por pressão, não é correto.
Hoje, nesse instante,
confesso que voltei a pedir a Deus para me levar. Quem sabe eu não encontraria
em outro plano o sorriso sincero de meu pai, José Antonio Filho, a quem pouco
vi; ou o ombro amigo de meu tio José Severino Neto de Souza, que tinha prazer
em me carregar sobre seus ombros quando eu era criança; ou a doçura de uma das
minhas avós, Noêmia Maria de Almeida e Antônia Sebastiana de Jesus. Eram duas
santas, de bondade imensurável.
Talvez eu fosse acolhido
pela dureza de minha mãe, Maria José de Souza, que tinha excessiva preocupação
comigo, e transformava essa preocupação em um código de conduta pessoal, que no
final das contas só me fez bem. Por traz daquela conduta ríspida, de comandos
rígidos, havia uma Maria que, tal a mãe de Jesus, era apenas uma mãe,
preocupada, doce, meiga, protetora.
Quem sabe lá, no além, eu
não encontrasse minha tia Mercês, irmã de meu pai, pronta para me dar um beijo
na face e segurar minhas bochechas, em uma sequência de gestos puros, genuínos,
confessadamente expressões de amor.
Ou, quem sabe, em outro
plano, Deus não me permitisse encontrar minhas tias avós Sebastiana Almeida,
Áurea Almeida e Antônia Almeida, que sempre me acolheram tão bem em suas
residências no Sítio Junco de Cima. Aliás, ainda hoje sinto o cheiro daquela
comida simples e mesmo tempo gostosa que só elas sabiam preparar e só elas
sabiam servir, com o tempero do amor, da fraternidade, da solidariedade (sim,
ofertar comigo a um garoto sertanejo, de pobreza franciscana, em tempos
difíceis, é sempre um ato solidário, antes de tudo).
Talvez em visse por lá
meu tio Ozanir Souza (Tronqueira), a quem devo muito em matéria de atenção,
carinho, acolhimento; ou minhas tias paternas Ana e Sebastiana, que me trataram
em vida de forma especial.
Só Deus sabe...
Se vou terminar essa
imersão aparentemente desvairada, foi porque Deus, no alto da sua misericórdia
e agindo em seus desígnios, só por Ele conhecidos, não atendeu a minha fúnebre
súplica.
Sozinho, aqui, choro
copiosamente. Sinto-me só, despedaçado em sentimentos que não sei explicar.
Estou tomado pela tristeza, pelo medo, pela angústia.
Quem dera passasse aqui
um sopro de esperança, um sentimento de alento, uma porção mínima de
tranquilidade.
Tento voltar à
racionalidade das coisas. Tento retomar o temor a Deus, Pai Eterno e
Todo-Poderoso. Volto o pensamento ao Livro da Sabedoria, capítulo 6, versículo
10: Os que observarem santamente a vontade santa dele serão declarados santos.
Não, não é minha
pretensão chegar ao título de santo. Mas é desejo observar a vontade Santa do
Pai.
Recorro novamente a outra
passagem bíblica, o Salmo 23, que tem um verso poderoso: “O Senhor é o meu
pastor e nada me faltará”.
Apego-me a Deus e agora Lhe
peço para amenizar as dores do coração e da alma, para me trazer a paz e a
tranquilidade que apenas o Senhor é capaz de conferir.
Tento esquecer o mundo à
minha volta. Peço perdão ao Senhor. Peço a Ele a sua misericórdia, capaz de nos
trazer uma justiça divina mais ampla.
Vou parar, na esperança
de que eu possa encontrar um amanhecer melhor, mais sereno, mais confortante.
A Deus, obrigado por
tudo, inclusive pela vida!
Alcimar Antônio de Souza